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Errata

Polêmica, brigas e indignações. O câncer de Lula realmente exaultou os ânimos e as opiniões dos brasileiros, divididos entre o “deve ou não ir para o SUS”. Eu mesma tive a infelicidade de expor minha opinião, antes mesmo de notar a ferocidade da guerra de argumentos que já se travava no Twitter e afins. 140 caracteres me impediram de esclarecer melhor a real intenção.
Antes de tudo, já adianto que não tenho partido e apenas me interessa o bem comum, a civilidade, a honestidade, transparência, o diálogo, a justiça. Não sou hipócrita, tenho plano de saúde e sim, tendo essa opção também iria ao Sírio Libanês. Já usei o SUS, minha família já dependeu de medicamentos distribuidos pelo mesmo, já estudei em escola pública, já peguei muito busão, ando de metrô, fiz e faço sempre que possível trabalhos voluntários, eventos beneficentes, vou à protestos… Não poupo esforços. Sou interessada, leio, converso, pesquiso, me matenho aberta para mudar de idéia, ser surpreendida e aprender. Arranco as cabelos tentando entender todos aspectos, ângulos e opiniões. E também erro. Não sou especialista, nem tenho formação no assunto, sou apenas mais uma brasileira.
Quando comentei sobre Lula e o SUS, não avaliei o quão ofensivo isso poderia parecer. Vergonha, não queria desejar mal a ninguém. De fato, peço desculpas, errei na execução da idéia. Apesar da declaração de que a “A saúde brasileira beira à perfeição” seja dele, colocar em pauta a saúde brasileira não foi nada pessoal. Não quis desejar o mal, não foi partidária, nem destra nem canhota. Se fosse a Marina, o Serra, FHC, seja lá quem fosse, daria na mesma. O problema é que ele mesmo deu a idéia, vai ver brasileiro não tem a memória tão ruim assim. Deveriamos ter?
O propósito é levantar a bandeira verde e amarela da conscientização de políticos e funcionários públicos das falhas e da urgência de melhorias do nosso sistema de saúde. A chamada (ao menos no meu caso) foi outra, a de que através do uso, da experiência, da vivência, seja possível tocá-los enfim. Afinal é um produto deles (TODOS). Talvez essa não seja assim uma idéia tão diabólica. Mas o jeito que ela está sendo expressada a torto e a direita é que fere o bom senso. Vira demagogia, é pura escrotice.
Sabemos que não é apenas esse setor que precisa de mais fiscalização, investimentos e transparência. Embora inviável e pouco provável, não acho má idéia que a mesma lógica pudesse ser aplicada ao transporte coletivo, educação, sistema prisional (insira aqui sua piada) e quaisquer serviços oferecidos à população.
Veja bem, assumindo que por isso estaria desejando o mal dos mesmos, que esta idéia se trata de uma tentativa de castigo ou humilhação, também é assumir que seus usuários diários estão em maus lençóis. Já estamos entrando num consenso de que existe um certo sofrimento de quem depende APENAS desses sistemas. Ou seriam todas essas notícias absurdas, chocantes e tristes, apenas um laboratório macabro da oposição? Não estamos todos a favor do país? Desejo sinceramente ver todo brasileiro sendo tratado no SUS como no Sírio Libanês.
De fato, acho racional, maravilhosa e quase altruísta a explicação de que, já que se pode pagar, então que se deixe a oportunidade de tratamento para quem não tem condições e precisa exclusivamente dessa ajuda. É exatamente pela falta de vagas, material e de profissionais na área que se cria a mesma problemática. Logo, concordamos que o sistema está sobrecarregado. Mas mesmo assim, ainda discutimos bravamente. Tiremos Lula da conversa.
A maldade para mim, está no fato de ser ignorada a impunidade, a corrupção (bilhões ao ano), as diferenças, negligências, precariedades e injustiças. Negar isso é insanidade. Maldade é dizer que está indo tudo de vento em popa, que vivemos em harmonia, igualdade, que a lei vale para todos, e que devemos aceitar as coisas como estão, sem questionar, cada um cuidando do seu umbigo e da sua ascensão individual. Uma apologia a indiferença. Mas é idiota criticar por hobbie.
Não aceito a idéia de que só pode se indignar quem é pobre e mal tratado. Existe um padrão mínimo de civilidade que é dever de todos. Desde não jogar lixo na rua, não furar a fila, devolver o troco a mais, não estacionar em local proíbido, respeitar a faixa de pedestres, não matar, não roubar, não sonegar impostos… Não ser corrupto e muito menos ser conivente com quem é. Ser cúmplice teoricamente também dá cadeia.
Já que se paga tudo em dia, que se faz o melhor que pode, por que não exigir o bom uso do dinheiro público? É muito monstruoso pensar assim? Quão grave é desejar o bem alheio, amar o próximo, desejar a todos o que deseja para você mesmo?
Tá, mas que é feio atacar um ser humano doente às custas de uma insatisfação muito mais abrangente, isso é. Lula acabou servindo de estopim, trazendo à superfície efêmera da internet uma questão pertinente, preocupante e de muitos outros carnavais. Dá para sentir o rancor pulsando nas declarações. Odeie o jogo, não o jogador.
O fato é que acompanho de perto o drama da Elizabeth, que trabalha aqui em casa há 5 anos e sofre de pressão alta e diabetes entre outras coisas. Beth é cardíaca, já infartou, e demorou meses para fazer uma consulta, depois mais alguns meses para fazer exames, e finalmente mais alguns para mostrar o resultado ao médico. Perdeu a validade dos exames pelo tempo de espera para o retorno, e precisou reiniciar o processo. Passa de mão em mão, de fila em fila, sofre dia-a-dia com a falta de profissionais, equipamentos quebrados e a demora no atendimento. Luta por um cateterismo há 4 anos… e ainda não conseguiu.
Assistimos aos telejornais juntas, e sempre comentamos, dialogamos sobre o que ela pensa, passa, sente e vê. Se não tenho o direito de reclamar, ao menos ela eu sei que pode, infelizmente, por conhecimento de causa.
O problema é que tenho sangue quente correndo pelas veias, me sinto incapaz de permanecer neutra, de não ligar. Não me conformo, mesmo podendo ter acesso ao conforto de serviços privados. Tomo as dores, não consigo ignorar, mas deveria, para não ser apedrejada por quem insiste em ver tal argumento como uma posição inimiga, contrária e mesquinha. Pode não parecer mas também sou a favor da ordem e do progresso, como manda nossa tradição. Adoraria que os impostos que pago chegassem intactos ao seu destino. Estamos juntos nessa.
Então vamos falar de futebol, de música, de moda, de novela, de reality shows, Miss Brasil, da peruca do Silvio, das fotos da atriz pelada que vazou, que assim se vive mais. Vamos ficar em cima do muro, calados que assim se vive em paz. Será?
Depois de muito observar toda essa baderna de agressões gratuitas, da população que se dividiu em amigos x inimigos, percebí que não quero fazer parte disso. Não vou me juntar nem aos fanáticos defensores nem ao coro maléfico rancoroso, ativistas de sofá. Babaquice de quem anda fazendo campanha para Lula se tratar no SUS como forma de punição, de piada ou provocação. Sério mesmo que vão levar isso adiante? Vão insistir?
Estão perdendo o propósito positivo (se é que ele existiu), e o diálogo sadio se transformou em dois monólogos ferrenhos, uma bola de coisas negativas e improdutivas. A melhor defesa é a conversa, e não o ataque.
Lula seria bem tratado e as chances de cura são as mesmas, afinal o metódo e a medicação é idêntica. O SUS não é incompetente, aliás opera de maneira milagrosa, tentando dar conta de uma população carente gigantesca, resistindo como pode aos desvios de verba, contando com a garra e boa vontade de profissionais mal pagos, que muitas vezes são obrigados a assistir seres humanos morrendo na fila de espera, apesar de seus esforços, dedicação e conhecimento. E salvam muitas vidas, como fizeram com a Fabiana, filha da Beth. Sem essa ajuda ela não teria vencido o câncer por duas vezes. O SUS funciona, mas é lento e está sendo surrupiado.
Também não acho que o Lula veja problema nessa sugestão. Não me surpreenderia se ele mudasse os planos, fizesse o tratamento no SUS. Ele não tem frescura, sabe que é um ícone, um líder, um modelo, que é admirado, amado, um espelho para muitos e seu poder move multidões. De qualquer maneira sua quimioterapia será o amor, a gratidão de milhões e milhões de pessoas que foram beneficiadas por seu governo, e isso não é mentira. Lula soube olhar para quem estava esquecido. 24 milhões saíram da miséria, ou seria isso invensão dos aliados? Não, isso realmente aconteceu e fico muito feliz. Mas também não é caso para canonização.
Lula é o cara, minha simpatia por ele vai além dos nossos aniversários, do nosso time, do nosso ABC, da incontinência verbal e amor pela pátria. Sua coragem é encantadora… Mas nosso país ainda tem muito pela frente. Dilma sabe disso, aliás quem preside no momento é ela. Desejo ao eterno “presida” uma ótima recuperação, muita saúde, força e vai corinthians!
Batendo no liquidificador tudo o que já foi dito, o resultado de toda essa massaroca esculhambada de “achismos” virtuais é a paixão pelo Brasil e pelas pessoas que nele habitam. Se sofremos, brigamos, discutimos, opinamos, nos intrometemos (onde nunca somos chamados, como se não fosse problema nosso) e nos importamos, é por amor e não por esporte.O que queremos é ver um país sem miséria, sem corrupção, com educação, saúde, igualdade e justiça. Líderes e população recebendo o mesmo respeito, tendo os mesmos direitos.
Show Notes